
Convidamos você a conhecer as diversas iniciativas que estão sendo desenvolvidas na América Latina em torno da ciência aberta e como ela permeou os diversos ecossistemas da região.
Esta obra, que acaba de ser lançada pela CLACSO, explora o cenário e as iniciativas em torno da ciência aberta na América Latina em cada país, incluindo um capítulo sobre o Brasil.
Esta é uma tradução livre do espanhol para o português de alguns trechos do texto de Apresentação da obra [1].
A ciência aberta na América Latina não surge como um enxerto tardio em uma árvore estrangeira, mas como fruto de uma tradição pública e cooperativa que vem se consolidando há décadas.
Na região latino-americana, a questão de quem paga, quem usa e quem se beneficia do conhecimento sempre esteve no cerne das universidades, bibliotecas, redes acadêmicas e comunidades editoriais.
Portanto, quando o mundo começou a falar em abertura, práticas, ferramentas e intuições já existiam aqui, guiando um modelo singular: publicações apoiadas por fundos públicos, repositórios que federam evidências e resultados, infraestruturas que priorizam a interoperabilidade e a preservação, e uma ética do cuidado que protege línguas, contextos e saberes.
Este volume reúne essa história viva.
Os capítulos mostram sistemas com mandatos explícitos e outros ainda em construção; agências reformadas e redes universitárias que preenchem lacunas no Estado; infraestruturas consolidadas e outras em transição; momentos de expansão e crise que testam a continuidade dos programas.
Em conjunto, o trabalho revela que o “ecossistema latino-americano” não é uma metáfora: trata-se de uma teia de decisões técnicas e políticas que permitem que periódicos, repositórios, dados e serviços dialoguem. Onde a cooperação floresce, o acesso deixa de ser um ideal e se torna uma prática institucional.
Um dos aspectos mais visíveis é o modelo de publicação não comercial, com predominância do Acesso Aberto Diamante. Milhares de periódicos universitários e públicos sustentam a circulação do conhecimento sem custos para autores ou leitores.
Este acordo, longe de ser ingênuo, baseia-se em critérios de qualidade editorial, integridade, profissionalização gradual das equipes e adoção de padrões técnicos compartilhados.
O livro mostra como a publicação científica na região se tornou mais transparente, com políticas de revisão claras por pares, atenção à ética em pesquisa, diretrizes para prevenir práticas inadequadas e progresso contínuo em direção a fluxos de trabalho interoperáveis.
Nessa arquitetura, plataformas e catálogos cooperativos não apenas indexam, mas também auxiliam na governança, treinamento e aprimoramento, criando uma comunidade técnica que compartilha procedimentos, manuais e métricas responsáveis.
Dentro dessa estrutura, infraestruturas cooperativas como SciELO, Redalyc, AmeliCA, LA Referencia e Latindex são integradas, assim como redes como CLACSO e RedCLARA, que fortalecem as conexões acadêmicas e editoriais.
Essas iniciativas demonstram que a região criou sua própria estrutura para a publicação, indexação e visibilidade e circulação da ciência, comprovando que a cooperação regional não é apenas um ideal, mas uma prática concreta.
O segundo pilar é a infraestrutura de repositórios. Primeiro vieram os repositórios institucionais, depois os agregadores nacionais e, posteriormente, as camadas regionais de coleta e descoberta.
A região aprendeu que a federação exige mais do que apenas adicionar links: ela demanda perfis de metadados compatíveis, identificadores persistentes, rastreabilidade da preservação e acordos mínimos de governança.
Quando isso acontece, os repositórios deixam de ser meras vitrines e se tornam serviços públicos: eles garantem visibilidade, preservação a longo prazo, acesso organizado por projetos, fontes de financiamento e comunidades, e informam as políticas de avaliação com evidências verificáveis.
A lição é simples: a interoperabilidade técnica é inseparável da interoperabilidade institucional.
Com os repositórios em funcionamento, o foco mudou para os dados de pesquisa. Os capítulos mostram que o depósito de artigos foi o ponto de partida; agora o desafio reside nos planos de gestão, documentação, políticas, licenciamento e curadoria.
Esta etapa não é trivial: os dados não são “abertos” de forma descuidada. Requer equipes treinadas, infraestrutura específica, critérios de anonimização e revisões éticas que considerem as sensibilidades, as comunidades e os territórios envolvidos.
Há uma crescente conscientização de que os dados abertos são tanto uma promessa de reprodutibilidade quanto uma responsabilidade para com aqueles que são sujeitos ou coautores do conhecimento.
Quando diretrizes claras e serviços de suporte são definidos, os dados começam a circular com princípios que os tornam localizáveis, acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis, sem perder de vista o princípio de serem “tão abertos quanto possível e tão protegidos quanto necessário”.
A ciência cidadã e o engajamento com a sociedade ampliam o escopo da abertura. Não se trata apenas de comunicar resultados, mas de coproduzi-los.
Mapeamento colaborativo, observatórios territoriais, salas de aula ampliadas e projetos com organizações da sociedade civil demonstram que, quando a sociedade está envolvida, a ciência ganha relevância e legitimidade.
Muitos capítulos destacam experiências em que escolas, movimentos comunitários e órgãos públicos utilizam e geram informações, influenciando políticas públicas, fortalecendo a cultura científica e devolvendo aos cidadãos o valor da pesquisa que financiam.
Muitos dos capítulos enfatizam que, em diversos países, leis e reformas foram consolidadas, reconhecendo a ciência como um direito humano e exigindo o depósito e o acesso aberto aos resultados.
Ao incorporar o direito à ciência em seus marcos legais e alinhando-se às recomendações globais, os Estados conferem legitimidade jurídica à abertura e reafirmam seu dever de garantir o acesso equitativo ao conhecimento para toda a sociedade.
== REFERÊNCIA ==
[1] SILVA, Fabiano Couto Corrêa da; CÓRDOBA GONZÁLEZ, Saray. Presentación. In: CIENCIA ABIERTA EN AMÉRICA LATINA / Alejandra Casas Niño de Rivera … [et al.]; Editado por Fabiano Couto Corrêa da Silva; Saray Córdoba González. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO; Heredia: Universidad Nacional de Costa Rica; Vancouver: Simon Fraser University, 2025. Disponivel em: https://biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar/bitstream/CLACSO/277344/1/Ciencia-abierta-AL.pdf Acesso em: 04 dez. 2025.
Sobre a CLACSO
O Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO) é uma instituição internacional não governamental com status associativo na UNESCO, criada em 1967. Atualmente, reúne 961 centros de pesquisa e pós-graduação nas áreas de ciências sociais e humanidades em 56 países da América Latina, Caribe e outros continentes. https://www.clacso.org/institucional/
